segunda-feira, 19 de outubro de 2009

VERDADE E PODER COM MICHEL FOUCAULT
Esse texto será um breve resumo da obra magnífica de Foucault chamada de Microfísica do Poder. Essa obra, como havia adiantado no twitter, foi um marco na minha vida. Marco justificado pela capacidade de mudar minhas convicções sobre como ESTUDAr a HISTÓRIA e de como podemos analisar as práticas humanas sob um novo ângulo considerando os discursos e suas relações diretas ou indiretas com a concepção multifacetada do poder.
Analisar um pouco da visão Foucaultiana é querer estar aberto a entender as transições e lutas de nossa sociedade para chegar nos consensos ou transformações de instituições ou comportamentos humanos.
O Capítulo resumido será a VERDADE e o PODER pertencente a 21ª edição da editora GRAAL com organização e revisão de Roberto Machado. Vamos ao resumo das idéias principais:
FOUCAULT
Duas palavras podem resumi-las: poder e saber. Creio haver escrito a História da loucura dentro deste contexto. Numa ciência como a medicina, até o fim do século XVIII, temos um certo tipo de discurso cujas lentas transformações - 25, 30 anos- romperam não somente com as proposições "verdadeiras" que até então puderam ser formuladas, mas com as maneiras de falar e ver, com todo o conjunto das práticas que serviam de suporte à medicina. Não são simplesmente novas descobertas; é um novo "regime" no saber e no discurso, e isto ocorreu em poucos anos.
O que está em questão é o que rege os enunciados e a forma como estes se regem entre si para constituir um conjunto de proposições aceitáveis cientificamente e suscetíveis de serem verificadas ou informadas por procedimentos científicos. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não linguística. relação de poder, não relação de sentido. A história não tem "sentido", o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas.
Ninguém se preocupa, nem a direita ou a esquerda, com a forma como o poder se exercia concretamente e em detalhe. Contentava-se em denunciá-lo no "outro", no adversário, de uma maneira ao mesmo tempo polêmica e global.
O que chamo de genealogia, é uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios dos objetos, etc, sem ter que se referir a um sujeito. creio que o problema não é de se fazer a partilha entre o que num discurso releva de cientificidade e da verdade e o que relevaria de outra coisa; mas de ver historicamente como se produzem os efeitos de verdade no interior de discursos que não são em si nem verdadeiros ou falsos.
Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso.
Há um combate "pela verdade" ou, ao menos, "em torno da verdade" - entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer "o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar", mas o "conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"; não se trata de um combate "em favor" da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha. É preciso pensar os problemas políticos dos intelectuais não em termos de "ciência/ideologia", mas em termos de "verdade/poder".
A "verdade" está circulamente ligada a sistemas de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem. "Regime" da verdade.
O problema político essencial para o intelectual não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa; mas saber se é possível constituir uma nova política da verdade. O problema não é mudar a "consciência" das pessoas, ou que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade.
Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder - o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder - mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.
Em suma, a questão política não é o erro, a ilusão, a consciência alienada ou a ideologia; é a própria verdade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário